Por Weslley Zapff | Governança Clínica, DHO e Gestão em Saúde
Na gestão de clínicas médicas e no desenvolvimento de carreiras de alta performance na saúde, existe uma linha muito tênue entre a dedicação legítima e o esgotamento silencioso da liderança.
Há 15 anos, publiquei um texto que marcou profundamente a minha trajetória reflexiva: "O que fazer quando perceber que a sua batata está assando?".
Aquele artigo gerou repercussões intensas entre gestores e executivos. Mas o que poucos conheciam era o bastidor: naquele momento específico, embora já contasse com vasta bagagem na administração e na consultoria, quem sentia a "batata assar" por dentro era eu. O incômodo era constante e faltava clareza de horizonte para consolidar o meu próprio caminho.
É um paradoxo comum a muitos líderes: eu já ministrava palestras e treinamentos para gigantes corporativos como Bayer e Gol Linhas Aéreas, mas internamente ainda buscava assumir o leme definitivo da minha rota.
Essa experiência ensina muito sobre a pressa humana e a importância de alinhar governança pessoal e profissional. Quando o relógio começa a incomodar e a clássica sensação do domingo à noite aperta o peito, é o sinal mais evidente de que estamos a errar o alvo da nossa rotina.
"É preciso ter coragem para começar e recomeçar quantas vezes forem necessárias."
O meu trabalho em Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO) exigiu dedicação extrema para redesenhar a minha própria trajetória. Não é um percurso simples quando se tem origem humilde e se cresce sob a mentalidade dos anos 1980 — onde a estabilidade de um concurso público soava como a única proteção contra uma economia instável. A estabilidade tem o seu valor, mas a maturidade profissional cobra expansão e propósito.
Muitas vezes, preparamo-nos para uma especialização técnica que, com o tempo, deixa de refletir quem nos tornámos. Na juventude, desenham-se planos grandiosos; na fase adulta, instala-se a cobrança silenciosa de que qualquer desvio de rota significa fracasso. Não é verdade.
Ao longo de mais de duas décadas dedicadas ao desenvolvimento de executivas e lideranças femininas — e de quase 15 anos caminhando diretamente ao lado de médicos titulares, cirurgiões e gestores de clínicas privadas —, aprendi que reconhecer o momento exato em que a "batata está assando" é a maior competência de antecipação estratégica que um líder pode desenvolver.
7 Sinais práticos de que a rotina está a consumir a sua operação e carreira:
Viver exclusivamente à espera do final de semana: quando os dias de descanso deixam de ser uma pausa e passam a ser a única fuga contra o expediente da clínica, a rotina perdeu a governança.
Horizonte restrito a pagar contas: honrar compromissos operacionais e tributários é mandatório, mas quando a visão do gestor se reduz a cobrir o mês, o negócio entrou em estagnação.
Falta de tempo para usufruir do que construiu: se a agenda de atendimentos e procedimentos não permite desfrutar do retorno financeiro obtido, a operação atingiu um gargalo crítico.
Alívio com elogios de lideranças desqualificadas: buscar validação pontual de quem não tem visão de futuro para os próximos 15 dias é um sinal clássico de dependência operacional.
A armadilha dos plantões ininterruptos e agendas sufocantes: acumular volumes massivos de atendimento sem blocos de gestão e governança compromete a autoridade e a vitalidade médica.
Hesitação diante do convívio pessoal: pensar duas vezes antes de estar com a família ou amigos sob a justificativa de "precisar poupar energia para a rotina" revela exaustão emocional.
Normalização de gargalos e desculpas: conviver com falhas crônicas de processos, desordem na equipe ou falta de padrões e encontrar justificativas diárias para não intervir na raiz do problema.
Assumir o leme da clínica e da carreira
A consolidação de uma clínica de alto padrão e a sustentabilidade de uma carreira na saúde exigem método, posicionamento executivo e inconformismo construtivo.
Se percebeu que a sua estrutura operacional chegou ao limite ou que a sua liderança está a ser consumida por urgências diárias, tome a decisão de recalcular a rota antes que as circunstâncias decidam por si. É infinitamente mais nobre assumir o leme da própria trajetória do que passar a vida inteira apenas a apagar incêndios.
Sobre o Autor:
Weslley Zapff é especialista em Governança Clínica, Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO) e consultoria de carreira para profissionais da saúde e lideranças executivas.
Nota: Uma versão deste ensaio foi publicada originalmente na Newsletter Governança & Gestão de Clínicas no LinkedIn.
